🏳️‍🌈 Existem mais gays atualmente?

Um dos mais fortes argumentos (e sem fundamento algum) utilizado por homofóbicos para justificar o porquê da homossexualidade ser uma aberração na cabeça deles, é de que "atualmente existem mais gays no mundo do que no passado".

As pessoas que afirmam isto, utilizam-se desta teoria (repito, infundada) com o intuito de se convencerem que os gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não são normais, pois, caso fossem normais como dizem ser, não seriam em um número muito maior nos dias atuais.

Para eles, a homossexualidade não é uma variação natural da sexualidade humana pois a comunidade LGBT nunca foi tão grande quanto é hoje, logo, algo estranho está acontecendo e envenenando, influenciando e "transformando cada vez mais os homens em gays e as mulheres em lésbicas".

Porém, a quantidade de LGBTs no mundo sempre foi e (provavelmente) sempre será a mesma. A impressão de que hoje existem mais gays e lésbicas do que há 20 anos atrás é resultado da liberdade e espaço que esta comunidade está conquistando lentamente em um mundo, que até pouco tempo atrás, tolerava uma só cor, uma só crença e uma só orientação sexual.

Qualquer pessoa que não estivesse dentro deste padrão construído pela sociedade e tido como o único correto (branco, cristão e hétero), estaria fora, incapaz, à margem, inimpregável, marginalizada e excluída de qualquer grupo.

Embora ainda existam muitas pessoas preconceituosas que criam armaduras, sofrem e lutam para que o mundo não evolua neste aspecto (principalmente lideres religiosos), felizmente, no geral, o preconceito tem diminuído. Ainda temos muito caminho pela frente, muito o que conquistar e milhões de cabeças para mudar, porém, aos poucos, no tempo de cada um, a sociedade tem se tornado, de um modo geral, mais inteligente, aberta e receptiva às mais diversas minorias.

Devido ao avanço tecnológico, as novelas trazendo temáticas gays, aos homossexuais e bissexuais assumidos e bem sucedidos que têm conquistado o seu espaço na mídia, à internet e as redes sociais que agora dão voz a quem até então não tinha voz alguma, e aos artistas grandes e de muita visibilidade totalmente engajados às causas minoritárias (ex.: Lady Gaga, Elton John, Anitta...), diversos gays se sentiram mais seguros em assumirem a sua sexualidade, saírem de seus armários, desde o início dos anos 2000.

Diferente do homem gay que nasceu nos anos 50, que não tinha o apoio da mídia da época e provavelmente em sua infância/adolescência não conheceu nenhum gay bem sucedido ou bem resolvido com sua orientação. Para ele, lhe restava apenas viver uma vida medíocre, no armário, reprimindo os seus desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo.

As lésbicas que nasceram nesta mesma época, se submetiam a casamentos heterossexuais e infelizes para que pudessem ser recebidas pela sua comunidade. Também eram obrigadas a reprimir os seus desejos e transavam com homens que nem imaginavam que não estavam sendo desejados verdadeiramente por suas esposas.

Naquela época, a religião também era muito mais forte, rígida, dominante e autoritária, e por isto, seus fiéis eram mais cegos, não tinham ferramentas e materiais de pesquisa e não se permitiam se quer questionar o que lhes era dito. Se questionassem alguma vírgula, amargariam eternamente queimando no fogo do inferno. Aquilo que o padre dizia na missa - ou aquilo que o pastor dizia no culto - era uma verdade absoluta, inquestionável e não se fala mais nisso.

Os gays e lésbicas mais carentes e moradores de periferias estavam em um cenário pior ainda, à eles só restavam a prostituição e a vida promiscua nas madrugadas como fonte de renda. Muitos ainda figuram neste cenário.

Os gays mais efeminados, "mulherzinhas", "viados escrotos", "travecões", "gazelas arrombadas", as "sapatonas caminhoneiras", "machonas" e os transexuais também precisavam recorrer à prostituição se quisessem se sustentar de alguma forma. Para eles, é muito mais difícil passar despercebido pela sociedade, se comparados aos gays e lésbicas mais discretos. Fora os que não foram espancados e assassinados nas ruas apenas por serem quem são.

Várias lésbicas também já foram estupradas por homens que acreditavam que elas precisavam "ser pegadas de jeito para aprenderem a gostar de homem".

Travestis já foram contratados para programas e depois humilhados pelo próprio contratante, que nem sequer pagaram pelo serviço prestado, mas, usufruíram e gostaram do atendimento.

Todos estes exemplos acima não são invenções da minha cabeça e nem são episódios específicos, isolados, pontuais e únicos. Foi e (em muitos lugares ainda) é REALIDADE.

Embora muita coisa mudou para melhor, ainda é muito difícil assumir ser algo diferente de heterossexual. Por isto, muitos LGBTs ainda optam por viver suas vidas no armário. Mas muitos também (como eu) se sentiram mais confiantes, se assumiram e agora vivem as suas vidas como querem, transando com as pessoas que querem, ouvindo as músicas e frequentando os ambientes que querem. E, por causa desta galera assumida (da qual eu faço parte com muita felicidade *-*), existe a falsa sensação de que existem mais gays hoje em dia.

Mas não, não existem mais gays (ou lésbicas, etc...) atualmente. Hoje, alguns de nós só estamos com menos medo de levarmos uma "lampadada" na cabeça apenas por sermos quem nós somos, por isto, nos permitimos a viver aquilo que queremos viver, com quem queremos viver, aonde queremos viver, como queremos viver...

Não se preocupe que o seu filho não vai "virar gay" porque existem "muito mais gay hoje do que antigamente". Ele apenas será quem ele é, independente se estamos em 2017 ou se ele tivesse nascido em 1800. Se ele for hétero, nada vai mudar isto! Pode deixar ele brincar com o brinquedo que ele quiser (boneca, casinha, cozinha, escova de cabelo...), usar a roupa da cor que ele quiser e brincar com o amiguinho que ele quiser. NADA MUDARÁ A SEXUALIDADE DELE! Se ele for gay e se assumir, não é porque o mundo está infectado e ele se tornou mais um dos muitos gays que existem hoje, é porque ele apenas se sentiu seguro (assim como eu) para dizer quem ele realmente é e viver a vida que ele deseja viver. Nada tornou ele assim, nada fez com que ele "virasse gay do nada", e nada que você fizer fará ele "voltar a ser hétero". Não adianta comprar milhões de carrinhos, revistas de mulheres peladas, levá-lo ao puteiro ou força-lo a fazer qualquer "coisa de macho" ok? Desencana disso. Será mais saudável para todo mundo!

Por fim, recomendo que assista ao vídeo abaixo, gravado por mim, onde eu falo um pouco sobre as coisas que vivi por ser gay. Nele eu falo de preconceito, homofobia, minha relação com minha família, etc...

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